Definindo MULHER

O que seria definir alguém, quando percebemos que isso por si só reduz a gama de expressão de um ser, em toda sua complexidade e possibilidade. Ao mesmo tempo, caso ainda assim queiramos ousar definir, o quem vem a ser o feminino, qual acepção seria certa? Como não pecar por estereótipos como: doçura, beleza, subserviência, sexualidade, compaixão, ou também força, ambição, destemor, grandeza, altivez… Quando estaríamos certos ou errados? O que é patente é que sobre a mulher se lança tantas expectativas, tantas exigências que qualquer tentativa de alcançar todos esses papéis levaria a loucura.

A verdade é que se colocam padrões ou metas para as meninas, obrigando-as a preencher esses critérios, de forma implícita ou explícita. Mas, quem faz essas escolhas e como se encaixar nessas formas? Vale a pena? Qual o custo de encaixar-se e ser “aceita” ou ser você mesma e ser “rejeitada”?

E mais, a construção de uma identidade é individual ou coletiva? Essa é uma discussão presente nas ciências do comportamento, que sem dúvida nos leva a uma grande verdade: jamais uma única variável dará conta de definir um fenômeno tão complexo. Por isso, não há como negar que qualquer experiência pessoal, por mais rica e única, acontece em meio a um ambiente histórico e cultural do qual não podemos fugir. Ainda assim, constatar tal influência do ambiente não anula a forma singular como cada ser e, no caso, cada mulher vive sua vida, de tal modo que qualquer definição deve levar em consideração que ser mulher é fruto de uma visão de mundo inclusiva, na intersecção de múltiplos elementos e possibilidades, e que se expande sempre, mesmo que uns não queiram, mesmo que se tente sabotá-las.

Por conseguinte, a mulher não pode estar presa às muitas pressões da família, dos amigos, dos companheiros e da sociedade que tentam transformá-la numa figura idealizada. Quando as mulheres tentam atender a todos esses papéis, desenvolvem uma forte sensação de inadequação e de incapacidade, pois ninguém atingirá o ideal.

Definições são sempre perigosas, pois não levam em consideração as particularidades de cada ser, de cada mulher, de tal modo que ela jamais expressará todo seu potencial e plenitude, se tentar alcançar os padrões que lhes são impostos. Será bem mais viável e simples seguir a própria intuição, ouvindo a si mesma e ao seu coração, lembrando que todas têm seus próprios talentos, seu próprio conjunto de características individuais, que são uma espécie de bússola. Seguir o coração não é tarefa fácil, especialmente quando ele não se encaixa no molde do que a sociedade considera “feminino”.  No entanto, é bem mais doloroso e destrutivo seguir o que os outros preconizam como sendo o correto, o desejável, o ideal, pois isso significa abrir mão de sua própria essência.

Hoje as mulheres estão mais confiantes e mais capazes, o que tem assustado alguns homens e instigado a outros. Elas escolhem o próprio futuro, definem metas, mas certamente muitas se veem presas entre o modelo das avós, no passado, ou, no presente, e nas expectativas futuras. Talvez por isso o significado do ser mulher seja, em muitos aspectos, ambíguo. 

Sem definições sim, mas para que serviriam?

O SER MULHER encontra significado na doçura que as levam a ajudar e colaborar, mas também na força de suas próprias buscas e metas.

Sem definições, finalizo com uma só feliz constatação de que, cada vez mais, as mulheres deixam de se envergonhar por lutarem e conquistarem sua própria felicidade. Que tal conquista não compete com os filhos, maridos ou qualquer ou papel que desejem assumir, ao contrário, inspira a todos nós.

Crise e novas identidades

VIVEMOS UMA ÉPOCA DE CRISES. Sim, crises. Não uma, nem duas, mas muitas crises. Não apenas econômica, ou social, ou familiar. Não apenas uma crise cultural e ideológica. Configura-se uma crise sistêmica, e como toda crise, as fronteiras definidoras que mantêm várias identidades, sejam elas de grupos ou pessoas, perdem a força de seus contornos deixando muitos em busca de novas formas de identificação. Num momento como este qualquer caminho é um caminho “válido”. Numa crise que afeta tão profundamente nossas identidades, refletir sobre ela é necessário.

Como elemento definidor de identidade vou usar um poeta, Fernando Pessoa, que sobre si mesmo disse: “eu sou algo entre aquilo que quis ser e o que fizeram de mim”. Parece claro então que, grosso modo, temos duas forças atuando em nossa formação: as pressões internas e externas. Quando a balança entre ambas encontra-se razoavelmente equilibrada e essas pressões, tanto dentro quanto fora do ser humano, são positivas, tudo vai bem. Mas não é o que acontece hoje.

Primeiro vemos que a balança tem tendenciado a dar uma maior influência aos fatores externos, o que já gera um desequilíbrio. Vemos também que esses fatores externos nem sempre são salutares, para não dizer quase sempre. Na busca incessante por novas fontes de identificação pessoal, os seres humanos dos nossos dias, têm encontrado inúmeras possibilidades ilusórias, que adiam, cotidianamente, o encontro com o verdadeiro eu. Crianças, jovens, adultos e velhos encontram-se em busca da eternidade do efêmero, numa tentativa desenfreada de manter o corpo nos padrões alucinantes das celebridades de todas as ordens. Vivemos numa época de hedonismo sem fronteiras, uma fruição extravagante da estética que a todos esmaga.

O corpo é o lugar sobre o qual se inscrevem nossas expressões emocionais. Lugar da construção dos limites, sendo também o lugar da manifestação de nossos medos, sonhos, desejos. Grande parte dos seres humanos dedica tempo e dinheiro em atividades físicas e estéticas, na tentativa de inscrever no corpo sua marca pessoal, seu cartão de visita para impressionar os demais, sem se darem conta da necessidade de consolidação dos recursos emocionais e do aperfeiçoamento pessoal que demanda tempo, disciplina e paciência. Ao mesmo tempo buscam atrair, através de um sensualismo vazio, parceiros e parceiras para esse (des)encontro.

Nada mais justo de que manter o corpo são, desde que a mente também esteja sã, embora não tenhamos observado que isso tenha acontecido. Para manter esse corpo, não diria são, mas nos “padrões”, temos pagado um alto preço, e essa busca gera uma frustração constante, pois sempre existirá uma infinidade de pessoas mais belas e atraentes do que nós.

E os poucos que se encontram nesses padrões são escravizados por ele, uma vez que sempre estão se comparando, em todos os lugares e situações com os demais, na tentativa louca de perceber-se: “espelho, espelho meu, existe alguém nessa balada mais bonito(a) do que eu?”, e quando tem, a insegurança toma conta; os “deserdados” da beleza sentem-se inferiorizados, menosprezando a si mesmos e buscando alternativas também ilusórias de compensação, tornando-se os palhaços da turma, os que pagam tudo, os oferecidos, os disponíveis, etc.

Cada qual com sua moeda de troca nas relações pueris. Todos sofrem, todos são vítimas de todos, mas poucos têm coragem de dar um basta e gritar: — isso é uma loucura… De fato esses valores são a expressão da loucura, da insensatez que paralisa e destrói vidas humanas, pois muitos jovens desenvolvem distúrbios como a anorexia e a bulimia, depressões e desencantos. Uma multidão de homens e mulheres perdendo um tempo precioso, despreparados para o envelhecimento do corpo, por não amadurecerem o espírito.

E por não terem construído recursos emocionais e morais, se encontrarão na velhice com o desespero, a decepção e a solidão. O Apóstolo Paulo asseverava: “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (I Coríntios 6:12). Certamente muitos são os caminhos, nem todos salutares. Em nós temos sempre a liberdade de escolher entre eles. A busca exclusiva de felicidade corporal nos leva a um estado anômalo. 

A identidade humana é múltipla e singular, de forma que tentar restringi-la a uma única faceta (corporal) empobrece nossa relação conosco mesmo, uma vez que passamos a confundir e descolar nossa identidade para nossa imagem. Nossa imagem perece, desgasta-se, envelhece, nossa identidade se aprimora, se consolida, amadurece, se o quisermos. Até mesmo para suportar os naturais limites do envelhecer precisamos amadurecer, desenvolver novas perspectivas, novos horizontes e novos recursos emocionais, até porque, ao final, a fotografia desbota, a face enruga, os contornos antes sedutores declinam, mas a alma se expande, se ilumina se tivermos um compromisso não apenas com o nosso corpo, mas especialmente com o nosso ser.

Solidariedade Tec(saca)nológica

Retirado do livro Temas Complexos – Uma Abordagem Didática:

A solidariedade pode ser entendida como uma espécie de unidade produzida por um grupo ou classe, com base em interesses, objetivos ou padrões comuns a todos do grupo. Também é vista como um conjunto de laços que, numa determinada sociedade, une as pessoas como um todo. Dado o seu caráter de compartilhamento, muitas vezes pode ser confundida como fraternidade, o que nem sempre é verdadeiro. A fraternidade é um sentimento que evoca em nós a capacidade de ver o outro, por mais diferente que este seja, como um igual e que merece, portanto, os mesmos direitos.

A solidariedade nem sempre nos iguala, às vezes reforça as diferenças. Não resta dúvida de que na época da escravidão, os que eram favoráveis à causa abolicionista eram solidários entre si, tanto quanto havia muita solidariedade entre os que eram a favor da manutenção da escravidão.

O que constitui a base da solidariedade varia entre as sociedades, mas em todas elas a solidariedade é construída pela soma da contribuição de cada na adesão ou não a um determinado valor ou comportamento.

No que diz respeito à cota individual de cada um de nós na construção da solidariedade, destaca-se a contribuição de Michael Hechter, professor emérito de sociologia da Universidade de Washington, com vários livros publicados sobre o tema. Segundo ele, a solidariedade de um grupo se constitui numa função com dois fatores que são independentes: o primeiro seria a extensão de nossas obrigações sociais, e, em segundo lugar, estaria o grau com que cada um de nós individualmente se compromete com essas obrigações. Esses dois fatores fornecem, portanto, os elementos definidores da solidariedade, de forma que quanto maior for a proporção de recursos pessoais na adesão de cada membro de um grupo para se alcançar um fim coletivo, maior será a solidariedade atingida.

A nossa solidariedade pode ser manifestada das mais variadas formas. Ela pode se manifestar através de um sorriso, de uma piscar de olhos, ou numa piscada de farol em uma BR para anunciar ao motorista que vem na contramão que há animais na pista, um acidente ou, o que melhor ainda para muitos, que há uma blitz da polícia rodoviária.

É justamente sobre essa última forma de solidariedade que eu gostaria de falar. Com o aumento da rigidez da lei seca no Brasil estamos presenciando a imensa rede de solidariedade formada entre as pessoas, a maioria das quais estranhas entre si, mas que tem um traço em comum que os une como uma família, a família dos embriagados que muitas vezes terminam a noite como assassinos do trânsito.

Motorista utilizando smartphone ao dirigir com os recursos tecnológicos de hoje, não precisa nem piscar o farol para o motorista ao lado, basta baixar no GPS ou nos smartphones os aplicativos que possibilitam o exercício da solidariedade da contravenção e do crime. Traficantes de drogas usam foguetões para avisar que a polícia está chegando, já os “homens de bem”, usuários da droga lícita que é o álcool, avisam numa teia de solidariedade tecnológica onde estão as blitz com bafômetros.

Às vezes eu sonho demais. Fico imaginando um Brasil no qual esses mesmos aplicativos servissem para informar, com a precisão típica do GPS, ao SAMU, onde um acidente aconteceu, ou à polícia onde está havendo o desenrolar de um crime, ou à delegacia da mulher, onde uma mãe de família indefesa está sendo espancada por um marido alcoólatra, ou à delegacia da infância e juventude onde uma criança está prestes a ser abusada sexualmente…

Por enquanto, isso ainda é uma grande ilusão, pois seria pedir demais a estes autômatos inconscientes e inconsequentes, que são escravos submissos da falta de caráter e moral débil, somados aos efeitos hipnóticos do álcool. Seria pedir demais que estas pessoas saíssem de um estágio primitivo de solidariedade tribal para, indo além de seus interesses mesquinhos, usarem a tecnologia não para destruir, mas para servir, formando uma teia da fraternidade universal.

Se você é um desses que usa esses aplicativos de forma solidária como os demais “bebuns” da vida, não se esqueça! Se um dia você estiver no velório de alguém que você ama e que sofreu um acidente de trânsito, ou porque estava alcoolizada ou porque foi vítima de um embriagado que vinha noutro carro, lembre-se de que você deu sua cota pessoal de participação. E não pense que isso foi um mero acidente, foi na verdade um crime com vários autores, entre os quais, você.

 

Em momentos de incerteza apenas os esperançosos sobrevivem.

Às vezes de tanto ouvir e ver as tragédias se sucederem na vida, seja pessoal ou no ambiente social, comumente temos a tendência de desacreditar na humanidade. Violência urbana crescente, um adolescente de 13 anos que matas quatro adultos, entre eles o pai e a mãe, e depois de suicida. Uma crise econômica que perdura desde 2008 e chega ao Brasil provocando uma estaginflação… É exatamente nessas horas que surge a premente necessidade da esperança.
Para muitos, ter esperança pode ser piegas ou até mesmo um gesto de inocência diante da vida e de suas vicissitudes, mas a esperança não é simplesmente o jogo do contente, de ver o lado bom das coisas ruins ou de acreditar que pensando positivo tudo vai mudar. A esperança entre em cena exatamente quando o contexto que nos cerca está extremamente desfavorável e o medo nos toma visceralmente.
A esperança não é um tipo simplista de positividade, uma vez que somos positivos quando nos sentimos seguros. A esperança, ao contrário, nos permite ver numa perspectiva mais ampla, tirando-nos do medo paralisante do problema aparentemente insolúvel. Ela nos lança no horizonte longínquo, além de tudo que hoje não tem jeito, e que amanhã será visto como aprendizado necessário para novos desafios que virão, tanto do ponto de vista pessoal quanto empresarial. Por isso, a esperança nos torna criativos e capazes de erguer as bases para a realização de nossos sonhos, evitando que entremos nos colapso do desespero. Essa sabedoria do organismo, a esperança, muda o ritmo de nosso ser e infunde a cura e a positividade realista, baseada não numa crença superficial e dogmática, mas na certeza de que, se já passamos por tantas outras coisas, porque não iremos passar por mais essa?

Ela é um antídoto contra o veneno do medo e do caos, isso porque podemos imaginar nosso próprio futuro, ao contrário dos animais, e quando fazemos isso, toda calamidade termina passando e toda crise passa.  person-835453_960_720
Ao abrirmos mão da esperança terminamos por cumprir nossas previsões mais terríveis, ao passo que, com ela, somos levados a nos esforçar e dar o máximo de nós, descobrindo que podemos passar, e muito, a fronteira dos limites que nos colocaram ou nos impusemos.
A esperança em meio às dificuldade nos leva a uma tensão dialética entre as possibilidades emocionais e limites emocionais, uma vez que é somente aceitando que temos limites que encontramos, a partir daí, o reino das possibilidades, a esperança.
Por isso mesmo ela se distingue do mero pensamento positivo que visa reverter o pessimismo, visto que se baseia na superação real dos limites, o que nos leva a perceber que os limites são criações nossas e como tal podem ser destruídos. O perigo nesses casos é nutrirmos a chamada “falsa esperança”, que está baseada inteiramente em torno de uma fantasia ou presa a um resultado extremamente improvável, mas que gostamos e precisamos acreditar possível.
A esperança sempre venceu o medo, antes mesmo da utilização política dessa verdade, mas esse medo só é vencido quando depositamos em nós, e não nos outros, as possibilidades do porvir. E quando paramos de espernear aos ouvidos surdos dos governantes, por um ambiente econômico mais saudável e seguro para os negócios, e passamos a criar nossas alternativas de vencer e superar o aparente caos.